As lembranças do casarão dos Volk vinham em lapsos na mente de Stephen, fragmentadas como vidros quebrados.
A Sra. Volk fora sua primeira guia no mundo da arte. Era ela quem o levava para as grandes salas de ópera, quem apresentava as partituras clássicas e quem financiava cada hora exaustiva de treino na barra de balé. Ela enxergava em Stephen a promessa de um gênio.
Mas o Sr. Volk odiava cada segundo disso.
Para o padrasto, a dedicação de Stephen à dança era uma afronta, um desperdício e uma fraqueza que ele não tolerava. As discussões na casa eram frequentes, frias e carregadas de desdém. Stephen nunca esqueceu a voz grave e áspera do homem ecoando pela sala de jantar após um dos ensaios:
— Quebre sua perna para eu ver se você aprende a dançar comigo, e nunca mais com ela.
A provocação era uma sombra constante sobre os anos de formação do garoto. Cada salto, cada pirueta e cada aplauso conquistado pareciam alimentar o rancor do padrasto, até o momento em que a ameaça velada finalmente se cumpriu no corredor de casa antes do recital.
A dança do Lago dos Cisnes fora realmente a última.
Agora, o silêncio da UTI substitui o som da orquestra. Stephen está preso na cama do hospital, imobilizado pelo coma, com a estrutura das pernas destruída pela agressão e pelas complicações da cirurgia.
Mas na penumbra do quarto, onde apenas o bip monótono dos monitores indica que ele continua vivo, o ar parece mudar de temperatura. No canto mais escuro do cômodo, uma figura alta permanece imóvel. O sobretudo preto cai com elegância, o capuz esconde o rosto, mas os olhos verdes brilhando na escuridão confirmam que a mulher de São Petersburgo não o abandonou.
