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Chapter 8 - Fate convocando Kratos como Berserk

A torrente de vácuo purpúreo e carmesim gerada pela *Enuma Elish* não apenas avançava; ela desfazia os conceitos fundamentais do ambiente. O asfalto da rua residencial não foi pulverizado; ele deixou de ser uma possibilidade geométrica, revertendo-se ao nada absoluto antes mesmo que o feixe de energia principal o tocasse. O ar tornou-se rarefeito, desprovido de oxigênio, uma massa de fricção pura onde as leis da física da Terra eram moídas pelos três cilindros negros de Ea.

Kratos marchava contra a tempestade de anti-matéria. Cada passo que dava exigia mais do que a força de seus tendões; exigia a reafirmação de sua própria existência. A mana fornecida pelo sistema de Rayshift da Caldeia entrava em seus circuitos como chumbo derretido, estalando através de sua pele em ramificações azuladas que tentavam costurar a carne que a *Enuma Elish* desintegrava a cada milissegundo. Suas clavículas estavam expostas, a pele pálida sendo arrancada em tiras de poeira cinzenta, mas o fogo das *Lâminas do Caos* recusava-se a apagar. Ele girava as correntes em arcos curtos e defensivos, criando uma parede de chamas primordiais que desviava frações do vácuo conceitual para os lados, obliterando os quarteirões vizinhos de Fuyuki em explosões silenciosas de vácuo.

No céu, os olhos carmesim de Gilgamesh estreitaram-se. A persistência daquela anomalia cinzenta contra a fundação da verdade humana era uma ofensa que transcendia o orgulho. Ele pressionou o punho de Ea com as duas mãos, forçando os cilindros a girarem além do limite seguro de rotação do próprio mundo.

"Ainda rasteja, verme do oeste?", a voz de Gilgamesh reverberou nas mentes de todos, desprovida de ondas sonoras. "Sua lenda é um tumor na tapeçaria do Trono! Desapareça!"

Foi nesse instante, quando a pressão de Ea estava prestes a esmagar os braços de Kratos e romper de vez o Escudo Guardião que ele erguera com o braço esquerdo, que o mundo reagiu.

A realidade não estremeceu através de energia mágica; ela estancou através de um imperativo absoluto. O tempo físico de Fuyuki desacelerou até parar. As chamas das Lâminas do Caos congelaram no ar como esculturas de vidro alaranjado, e o turbilhão vermelho da *Enuma Elish* tencionou-se, transformando-se em uma massa estática de vetores de força geométricos.

Do nada, o cheiro de metal frio, óleo de engrenagem de relógio e o hálito gélido de bilhões de mentes inconscientes tomou conta do espaço. Não era a intervenção do Grande Graal, nem a vontade de um deus. Era a manifestação direta e mecânica de **Alaya**, a Vontade de Sobrevivência da Humanidade.

O sistema de invocação da Terra havia determinado que o choque entre o registro proibido do Matador de Deuses e o ápice do Trono dos Heróis na textura atual de Fuyuki causaria uma racha permanente na Linha de Transição Fenomênica da história humana. Alaya não possuía rosto, mas possuía anticorpos.

O céu cinzento acima da Gate of Babylon descoloriu-se por completo, tornando-se um cinza estéril, semelhante ao chão de uma fábrica sem fim. O som de correntes massivas que vinham de lugar nenhum ecoou pelo espaço mental dos presentes.

De repente, a figura de Archer (EMIYA), que estava na retaguarda protegendo Rin, empalideceu. Seus olhos cinzentos perderam a pouca cor que tinham quando seu próprio corpo começou a se mover contra a sua vontade. Seus circuitos mágicos foram sumariamente sequestrados por uma diretriz superior. Ele não era mais o Espírito Heroico EMIYA; ele fora reduzido ao seu papel de **Contragolpe** (*Counter Guardian*).

"Rin...", Archer conseguiu articular uma última palavra, sua voz distorcida por um eco metálico que não lhe pertencia. "Afaste-se... O sistema assumiu."

O corpo de Archer flutuou, os olhos tornando-se completamente brancos e sem pupilas. Ao mesmo tempo, das fendas espaciais que se abriram ao redor da cratera, outras silhuetas sem rosto, envoltas em mantos feitos de sombras e fumaça de pólvora, começaram a se materializar. Dezenas de Contraguardiões, as ferramentas de expurgo de Alaya, emergiram da própria terra estéril. Eles não carregavam espadas sagradas ou tesouros divinos; carregavam o conceito puro de "execução".

O alvo do Contragolpe não era apenas Kratos. Era o próprio conflito. Alaya vira que a *Enuma Elish* de Gilgamesh e a *Fúria de Esparta* de Kratos eram forças de peso equivalente que esmagariam a integridade da era atual. O veredito do mundo era a eliminação mútua.

Os braços mecânicos dos Contraguardiões ergueram-se em uníssono. Cadeias de ferro negro, gravadas com sentenças numéricas que representavam a estabilização da história, dispararam do céu e da terra simultaneamente.

Metade das correntes envolveu os braços de Gilgamesh, travando o movimento dos cilindros de Ea com o peso conceitual de toda a história humana subsequente à sua era. O Rei dos Heróis rugiu de frustração quando a Gate of Babylon começou a piscar e fechar, seus tesouros sendo forçados a retornar aos cofres pelo próprio mundo que ele outrora governara.

"Malditos cães da vontade coletiva!", Gilgamesh cuspiu, o sangue divino escorrendo de seus punhos enquanto ele tentava girar Ea contra as próprias amarras de Alaya. "Vocês ousam tentar conter o meu julgamento?!"

A outra metade das correntes negras desceu sobre Kratos. Elas morderam seus ombros, perfurando a carne pálida e travando as *Lâminas do Caos* no chão. O peso de bilhões de almas que desejavam apenas a continuidade pacífica de suas vidas desabou sobre as costas do espartano, forçando-o a dobrar os joelhos até tocar o asfalto destruído.

Kratos sentiu a pressão. Não era o ódio de Ares, nem a tirania de Zeus; era algo pior. Era a força opressiva da mediocridade organizada, a recusa do mundo em permitir que algo fora do padrão existisse. A lama de Alaya tentava sufocar seu espírito, rebaixando seu status de "Destruidor de Mitologias" para o de uma simples falha de sistema a ser deletada.

Fujimaru Ritsuka, assistindo à intervenção mecânica, sentiu o suprimento de mana da Caldeia ser rejeitado pelas linhas ley locais, que agora estavam sob o controle direto de Alaya. "Mash! O sistema está nos rejeitando! Os circuitos estão revertendo o Rayshift!"

"Master! O Contragolpe está limpando a área de todas as variáveis externas!", Mash gritou, usando o próprio corpo para proteger Ritsuka enquanto as ondas de choque de Alaya tentavam apagar a projeção da Caldeia daquela linha temporal. "Se não quebrarmos o bloqueio das correntes, o Berserker será desintegrado junto com o tecido de Fuyuki!"

Kratos olhou para o chão cinzento. O sangue que pingava de suas feridas evaporava antes de tocar o solo, transformando-se em códigos numéricos inúteis. Ele ouviu as vozes dos Contraguardiões em sua mente — um coro monótono, sem emoção, repetindo a mesma diretriz: *Retorne ao nada. Você não pertence a esta ordem. Sua história foi concluída.*

Um rosnado baixo começou a subir pela garganta do espartano. Ele fechou os punhos, as correntes de Alaya esticando-se até o limite, os elos negros emitindo um som estridente de estresse estrutural.

Ele passara a vida inteira sendo a ferramenta da vontade de outros. Fora a arma dos deuses na Grécia, fora o peão do destino nas terras nórdicas até que decidira moldar o próprio caminho pelo bem de seu filho. E agora, um mecanismo sem alma, feito do medo coletivo de mortais que ele nem conhecia, tentava lhe dizer onde sua história terminava.

**"Eu..."**, Kratos começou, as veias de seus braços dilatando-se até quase romperem sob a pele. A energia azul do Machado Leviatã, que estava cravado a poucos metros dali, começou a responder, pulsando em sincronia com o ódio antigo que reabria suas feridas. **"Eu não sou... uma falha do seu sistema."**

Ele levantou a cabeça. Seus olhos não eram mais azuis rúnicos, nem o fogo controlado de Esparta. Eram duas fendas de ouro puro, o olhar do homem que havia despedaçado as irmãs do destino com as próprias mãos.

**"O MEU DESTINO... É MEU!"**

Com um grito que rasgou o silêncio cinzento de Alaya, Kratos usou a força monumental de suas pernas para se levantar contra o peso da história humana. As correntes negras de Alaya começaram a trincar, pequenos fragmentos de vácuo estilhaçando-se no ar à medida que o Fantasma de Esparta forçava sua musculatura além dos limites do que o Trono dos Heróis considerava possível para um Espírito Heroico.

Do outro lado do campo de batalha congelado no tempo, Gilgamesh assistia ao espetáculo com uma seriedade sombria. Pela primeira vez, ele viu que o homem à sua frente não era um vira-lata rastejando em seu jardim. Era um igual. Uma força que, assim como ele, recusava-se a ser contida pelas margens que o mundo tentava impor aos heróis.

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