Yasmim virou-se lentamente, os olhos frios fixados na expressão atônita de Stephen. A luz azulada da lareira desenhava sombras profundas em seu rosto aristocrático.
— Sua mãe era para subir ao trono aqui — disse ela, a voz carregada do peso de uma Coroa rejeitada. — Tudo isso... o castelo de gelo, o domínio sobre a Sibéria, a liderança da nossa linhagem. Tudo pertencia a Christyane por direito de nascença. Mas ela escolheu as trevas. Preferiu os segredos de Morgana ao invés do trono que a esperava.
Stephen tentou assimilar as palavras. O contraste entre a vida miserável no orfanato, o rigor do balé e a grandeza do legado de sua mãe parecia surreal, mas a energia que fluía por seu peito não mentia.
— Você ainda não percebeu, não é? — continuou Yasmim, dando um passo em sua direção. — Você não percebeu que as sombras sempre estão se comunicando com você?
O silêncio do salão pareceu expandir-se.
Stephen olhou para o próprio rastro na neve acumulada no chão do castelo. Ele lembrou dos momentos em que esteve no palco, da força inexplicável que sustentava cada salto, dos sussurros na penumbra do quarto do orfanato e do manto escuro de Morgana que sempre esteve à espreita.
Não eram visões de uma mente perturbada pela dor; eram as sombras da sua própria natureza tentando acordá-lo.
— Elas não estavam te assombrando, Stephen — concluiu Yasmim, o tom de voz baixando a um sussurro solene. — Elas estavam apenas esperando o momento em que o seu corpo humano quebrasse para que a sua verdadeira essência despertasse.
